Na época em que João e eu começamos a namorar, ele presenteou-me com um colar de borboletas. Naquele tempo, considerei o gesto mais doce desse mundo. Hoje, mulher feita que sou, tenho certeza de que se Freud o conhecesse, interpretaria tal atitude como reveladora daquilo que ele faria nos próximos anos: escamotearia toda a minha liberdade.
Aquela Bia vivaz, cheia de sonhos e ambições, gradativamente desapareceria no espelho em cada manhã. João se tornaria meu centro gravitacional e pouco a pouco, eu deixaria de ser aquilo que era para me tornar aquilo que ele desejava.
Foi assim que pintei meus cabelos de loiro. Certa vez estávamos assistindo Dogville, quando João disse que Nicole Kidman era a mulher mais sexy do mundo. Obcecada por ele, tratei imediatamente de me aproximar do estereótipo que o agradava. Esse foi o começo do fim, passei a aceitar tudo o que ele me propusesse, desde desrespeitos em público até traições. Eu vivia em função dele e não poderia negar nenhum de seus desejos. No começo achei que vivia o amor em sua mais forte acepção, somente depois percebi que estava imersa em uma doença incurável.
Somente quando resolvi fazer uma brincadeira com meus familiares que verdadeiramente conheci João. Em um almoço na casa de meus pais, brinquei que estávamos noivos. Ao terminar tal anúncio, só me recordo de cair abruptamente nos braços de minha mãe. O homem a quem devotei toda a minha existência me agredia pela primeira vez. Meu pai correu para o quarto, buscou sua arma e apontou na direção de João. Resolvi intervir, coloquei-me à frente dele e implorei para que meu pai não disparasse. Disse que eu já o havia matado no exato momento em que me encostou a mão. Por amor a mim, meu pai deixou que ele partisse.
Jamais quis vê-lo novamente e, três meses após o ocorrido, soube pelos jornais que ele não havia suportado as saudades e cometido suicídio. Foi só então que descobri que há várias formas de matar alguém.

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