segunda-feira, 21 de abril de 2014

Brasília

Há quem defina Brasília como ponto de corrupção. O que poucos dizem, no entanto, é que a minha cidade é muito mais do que um ponto de convergência de toda escória política. Aqui não se formam petralhas, eles já chegam assim de seus estados. Fico enojada quando me perguntam se encontrei com o presidente ou se sou filha de deputado. Não por odiar a política, muito pelo contrário, mas por não suportar o reducionismo de quem quer transformar a minha cidade em uma simples sede da Administração. Brasília é céu, mas também é cultura, qualidade de vida e oportunidade. É mazela, desequilíbrio social e tristeza, como qualquer lugar do mundo. O que me faz amá-la não cabe nessas linhas, mas transborda ao longo desses vinte e seis anos de existência. Parabéns, minha capital! Eu te amo com suas fragilidades e triunfos!

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Arrebatamento

Nem a mais alta retórica é capaz de traduzir o que aqueles olhos me trouxeram. Até a mais célebre de todas as comparações, feitas por Machado, jamais traduziria tal encanto, pois a mais brava ressaca marítima é infinitamente inferior ao arrebatamento causado por aquele olhar. Quando me vi perdida naquele verde labiríntico, fui arrastada para dentro de mim mesma em uma velocidade que até então desconhecia. Eu, leiga na arte e no amar, já me sentia incapaz de diferenciar as sensações que me tomavam. Transitava entre o frescor da inocência e o fervor das paixões. A verdade é que aqueles campos verdejantes me induziam para um mundo desconhecido, em que tudo era possível e nada estava condenado. Tal como a esfinge, me advertia: decifra-me ou te devoro. 
E na profusão do desejo de me afogar naquele mistério, fui completamente sugada pelo seu silêncio. Dele fiz meu abrigo e meu abismo. 

domingo, 25 de agosto de 2013

Escravos sentimentais

Não existe nada mais degradante do que a escravidão sentimental. Ver um ser rastejando por outro é desacreditar na evolução humana. Depositar sua vida nas mãos de alguém é assumir a incapacidade de se dominar. Viemos ao mundo para agregar valores, jamais para subordinar nossos destinos.


sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Redenção

Observando grande parte dos relacionamentos atuais, entregues ao completo desrespeito e à invasão de privacidade, constato que isso é fruto de uma geração carente de si mesmo, que teme a solidão. Muitas vezes , infelizmente, por acreditar que isso signifique estar em péssima companhia. Parece que há uma profunda necessidade de encontrar no outro uma satisfação que não se alcança com o simples fato de existir e ter uma série de possibilidades a sua frente. Então, esse ser humano profundamente consciente de que não é suficientemente interessante, busca sufocar um outro, pois sabe que se esse último conhecer o mundo lá fora, perde o interesse pelo vazio que vive ao lado do ser que o oprime. Bendito seja aquele que tem a coragem de sair dessa caverna e contemplar o sol da liberdade. Como qualquer mudança, exige força. A luz certamente maltrata os olhos daquele que viveu durante anos nas trevas, mas a redenção que transcorre desse processo é irreversível. 

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Retrato da hipocrisia

(Baseado em fatos irreais, amplamente divulgados por famílias desestruturadas em suas redes sociais).   

     Tânia estava casada há nove anos com Pedro. Apaixonaram-se na adolescência, descobriram o mundo juntos e hoje são pais de Liana e Ricardo. Os quatro formam uma família que, a primeira vista, seria invejada até pelo mais fervoroso cristão. Isso seria tudo se não soubéssemos que as mesmas fotos que transparessem os mais belos sorrisos, ocultam os mais tristes corações.
        Mas comecemos pela verdadeira origem da história e voltemos os olhos para Regina, mãe de Tânia que,  apesar de aparentar ser uma distinta senhora, tem vontade de matar seu filho Caio, sempre que a fisionomia dele remete à imagem do marido que a abandonou. Jamais havia aceitado conviver com uma cópia do homem que a trocou por uma mulher mais jovem, mais inteligente e menos amarga. É óbvio que a maturidade tem seus benefícios, mas o poder de uma jovem perspicaz também vem sido descrito desde as mais remotas obras. Não esqueçais que as desgraças que afligiram gregos e troianos foram frutos do encantamento produzido pela jovem Helena.
           Esqueçamos a alegoria supracitada e concentremo-nos em Caio,  um rapaz distinto que possui poucos amigos e um emprego relativamente estável. Frequenta bons ambientes, gosta de um bom vinho e possui corpo de espartano. À primeira vista, o homem ideal, não fosse a celeridade em que a sua máscara tende a desabar. Apesar da aparência física parecer incólume, nada mais é do que a consequência do uso desenfreado de anabolizantes   e da dependência química que o atormenta. A beleza, nesse caso, se mostra incapaz de suprir a insegurança. Isso faz com que Caio tenha um verdadeiro ataque de pânico toda vez que tenta se relacionar com alguém que lhe pareça superior, seja intelectual ou moralmente. É exatamente essa a causa de sua solidão: o mundo rapidamente se cansa da melancolia de quem não se ama. 
           Voltando ao casal exemplar do primeiro parágrafo, esse narrador sente informar: Tânia passa dias chorando em seu quarto, lamentando depender financeira e psicologicamente de seu esposo. Pedro, por sua vez, expõe diariamente aos amigos a tristeza que sente ao chegar em casa e encontrar uma mulher tão fútil. 
            E no meio de tantos problemas, maiores ou menos drásticos, todos esses personagens se reúnem semanalmente para tirarem a foto que postarão nas redes sociais no domingo. Ajeitam os cabelos, ajustam sorrisos mas permanecem com suas mentes submersas no infortúnio de seus destinos.

domingo, 21 de julho de 2013

O segredo da vida

Dedicado à minha avó e ao meu amigo Douglas Amorelli)

       Um dia li uma frase que definia a vida como sendo um eterno rasgar-se e remendar-se. Nela, o poeta nos alertava para o fato de que a exigência maior dessa aventura é que sejamos fortes. Apenas hoje vivencio o peso desse desafio.
        Na tarde de ontem, eu me preparava para ir à casa de um amigo recém operado, na intenção de levar um pouco de alegria e força para ele. Quando finalmente alcançava a porta, na certeza de que ficaríamos juntos até o período noturno, meu telefone tocou. Atendi pensando que era ele, mas infelizmente era a notícia mais indócil de todas: o falecimento de minha avó. 
        Perdi a força nas pernas, sentei-me no sofá e mandei uma mensagem para esse amigo, explicando os motivos pelos quais eu não estaria com ele hoje. Ali, revelou-se o mistério da vida: ele, que anteriormente parecia o potencial receptor da minha ajuda, se tornava o grande apoiador da minha queda. Recebi cada palavra como o gesto de carinho mais perfeito do mundo e como a lição de toda uma vida. 
        Hoje revelo aquilo que muitos já sabem, porém poucos colocam em prática: é necessário doar-se à humanidade. Por mais que o mundo tente frustrar seus sonhos e a fé na sociedade, dê o melhor de si a cada pessoa que passa pela sua vida. O dia de amanhã é incerto, mas o poder do amor, não. 
   
O segredo da vida 

(Dedicado à minha avó e ao meu amigo Douglas Amorelli)

       Um dia li uma frase que definia a vida como sendo um eterno rasgar-se e remendar-se. Nela, o poeta nos alertava para o fato de que a exigência maior dessa aventura é que sejamos fortes. Apenas hoje vivencio o peso desse desafio.
        Na tarde de ontem, eu me preparava para ir à casa de um amigo recém operado, na intenção de levar um pouco de alegria e força para ele. Quando finalmente alcançava a porta, na certeza de que ficaríamos juntos até o período noturno, meu telefone tocou. Atendi pensando que era ele, mas infelizmente era a notícia mais indócil de todas: o falecimento de minha avó. 
        Perdi a força nas pernas, sentei-me no sofá e mandei uma mensagem para esse amigo, explicando os motivos pelos quais eu não estaria com ele hoje. Ali, revelou-se o mistério da vida: ele, que anteriormente parecia o potencial receptor da minha ajuda, se tornava o grande apoiador da minha queda. Recebi cada palavra como o gesto de carinho mais perfeito do mundo e como a lição de toda uma vida. 
        Hoje revelo aquilo que muitos já sabem, porém poucos colocam em prática: é necessário doar-se à humanidade. Por mais que o mundo tente frustrar seus sonhos e a fé na sociedade, dê o melhor de si a cada pessoa que passa pela sua vida. O dia de amanhã é incerto, mas o poder do amor, não.