Tânia estava casada há nove anos com Pedro. Apaixonaram-se na adolescência, descobriram o mundo juntos e hoje são pais de Liana e Ricardo. Os quatro formam uma família que, a primeira vista, seria invejada até pelo mais fervoroso cristão. Isso seria tudo se não soubéssemos que as mesmas fotos que transparessem os mais belos sorrisos, ocultam os mais tristes corações.
Mas comecemos pela verdadeira origem da história e voltemos os olhos para Regina, mãe de Tânia que, apesar de aparentar ser uma distinta senhora, tem vontade de matar seu filho Caio, sempre que a fisionomia dele remete à imagem do marido que a abandonou. Jamais havia aceitado conviver com uma cópia do homem que a trocou por uma mulher mais jovem, mais inteligente e menos amarga. É óbvio que a maturidade tem seus benefícios, mas o poder de uma jovem perspicaz também vem sido descrito desde as mais remotas obras. Não esqueçais que as desgraças que afligiram gregos e troianos foram frutos do encantamento produzido pela jovem Helena.
Esqueçamos a alegoria supracitada e concentremo-nos em Caio, um rapaz distinto que possui poucos amigos e um emprego relativamente estável. Frequenta bons ambientes, gosta de um bom vinho e possui corpo de espartano. À primeira vista, o homem ideal, não fosse a celeridade em que a sua máscara tende a desabar. Apesar da aparência física parecer incólume, nada mais é do que a consequência do uso desenfreado de anabolizantes e da dependência química que o atormenta. A beleza, nesse caso, se mostra incapaz de suprir a insegurança. Isso faz com que Caio tenha um verdadeiro ataque de pânico toda vez que tenta se relacionar com alguém que lhe pareça superior, seja intelectual ou moralmente. É exatamente essa a causa de sua solidão: o mundo rapidamente se cansa da melancolia de quem não se ama.
Voltando ao casal exemplar do primeiro parágrafo, esse narrador sente informar: Tânia passa dias chorando em seu quarto, lamentando depender financeira e psicologicamente de seu esposo. Pedro, por sua vez, expõe diariamente aos amigos a tristeza que sente ao chegar em casa e encontrar uma mulher tão fútil.
E no meio de tantos problemas, maiores ou menos drásticos, todos esses personagens se reúnem semanalmente para tirarem a foto que postarão nas redes sociais no domingo. Ajeitam os cabelos, ajustam sorrisos mas permanecem com suas mentes submersas no infortúnio de seus destinos.

Nenhum comentário:
Postar um comentário