quinta-feira, 4 de outubro de 2012


Cinquenta Tons de Cinza
(Dedico esse texto a uma grande mulher: minha amiga, tia e confidente Narley Ribeiro. Fã incondicional desse livro e musa inspiradora para todas nós)

Quase sempre é a mesma lógica: um livro sobe para a lista dos mais vendidos e os intelectuais tendem a deslegitimá-lo. Aconteceu com Código da Vinci e com Cinquenta tons de cinza não poderia ser diferente. Na maioria das vezes em que isso acontece, corro para livraria mais próxima e adquiro meu exemplar. Pois bem, depois de ler algumas críticas vorazes e  de devorar as quatrocentas e cinquenta e cinco páginas, finalmente tenho uma opinião formada a respeito do livro que tem causado um alvoroço nas mulheres e enfurecido os homens.
O primeiro ponto a rebater foi o aspecto mais criticado, traduzido na pedante frase: “O livro subjuga a mulher.” Acredito que uma afirmação como essa é que coloca a mulher abaixo da sua condição. Supor que somos seres frágeis e que podemos ser induzidas a seguir tudo que uma obra fala é, no mínimo, risível. Acredito muito na luta feminista, sei os benefícios que tem trazido desde a queima dos sutiãs em praça pública, mas confesso que algumas bandeiras levantadas são inconsistentes. A mulher, como ser autônomo, é livre pra fazer suas escolhas, mesmo que elas desviem do que a sociedade rotula como “normal”.
Uma das minhas curiosidades, ao ler a obra, era desvendar o encantamento que muitas mulheres me confessaram em relação a Christian Grey. Confesso que a princípio senti uma aversão descomunal ao personagem, mas pude compreender ao longo das páginas o segredo do homem obcecado pelo controle. Essas mulheres às quais me refiro não o admiram pelo seu poder (aquisitivo ou coercitivo), ou por gostarem de ser controladas ou pelo porte físico descrito pela autora. O grande triunfo dele consiste no fato de que muitas mulheres gostam de proteção e atenção. Grey tenta estar presente desde os mínimos gestos. Encarar suas ações como uma tentativa de “comprar” Anastasia é supor que uma mulher tenha seu preço. Há várias formas de interpretar as grandiloqüentes ações do milionário, a que mais me parece coerente é a de considerar uma tentativa de impressionar o parceiro.
Anastasia Steele, por sua vez, nos arrebata por representar os conflitos internos que sofremos, sobretudo quando estamos conhecendo alguém. Talvez esse seja o ponto forte do livro, nos induzir a uma imersão no universo psicológico de uma mulher, com suas fragilidades e temperanças. Apesar de fazer escolhas ousadas, Ana tende a procurar muitas justificativas para suas ações. A meu ver, a maioria delas parece uma tentativa de provar para si mesmo que os erros cometidos valem à pena.
Considerei enredo criativo, mesmo apresentando alguns aspectos já descritos em outros livros e filmes. Em um mundo em que tantas obras já foram escritas e a genuinidade é cada vez mais inalcaçável, a resolução dos conflitos me pareceu satisfatória.
Porém, como nada nesse mundo é perfeito, há um aspecto do livro que deixa a desejar e, mesmo assim, acaba sendo o que há de mais curioso: ele é MUITO MAL ESCRITO. Excesso de palavrões, expressões que beiram a breguice, repetição demasiada de palavras (perdi as contas de quantas vezes ela se refere à “deusa interior”), etc. No entanto, os diálogos e a articulação dos acontecimentos são tão consistentes que mesmo detestando a maioria das palavras, somos acorrentados pela história. A idéia está acima da execução, inequívocamente. Talvez seja isso que desaponte os letrados. No entanto, é exatamente isso que eles devem ter em mente: de nada adianta ser brilhante com as palavras se as idéias são medíocres. Mas de todas as coisas que esse livro me trouxe, nenhuma foi mais prazerosa do que saber que ele trouxe a algumas pessoas a paixão pela literatura. Machado de Assis é brilhante, Nietzsche é arrebatador, mas o que verdadeiramente importa é sentir alegria no que se faz. Viva Cinquenta tons de cinza e a sua capacidade de colocar a sociedade pra discutir uma obra literária. 


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