Cinquenta Tons
de Cinza
(Dedico esse texto a uma grande mulher: minha amiga, tia e confidente Narley Ribeiro. Fã incondicional desse livro e musa inspiradora para todas nós)
(Dedico esse texto a uma grande mulher: minha amiga, tia e confidente Narley Ribeiro. Fã incondicional desse livro e musa inspiradora para todas nós)
Quase sempre é a
mesma lógica: um livro sobe para a lista dos mais vendidos e os intelectuais
tendem a deslegitimá-lo. Aconteceu com Código da Vinci e com Cinquenta tons de cinza
não poderia ser diferente. Na maioria das vezes em que isso acontece, corro para
livraria mais próxima e adquiro meu exemplar. Pois bem, depois
de ler algumas críticas vorazes e de
devorar as quatrocentas e cinquenta e cinco páginas, finalmente tenho uma
opinião formada a respeito do livro que tem causado um alvoroço nas mulheres e
enfurecido os homens.
O primeiro ponto
a rebater foi o aspecto mais criticado, traduzido na pedante frase: “O livro
subjuga a mulher.” Acredito que uma afirmação como essa é que coloca a mulher
abaixo da sua condição. Supor que somos seres frágeis e que podemos ser
induzidas a seguir tudo que uma obra fala é, no mínimo, risível. Acredito muito
na luta feminista, sei os benefícios que tem trazido desde a queima dos sutiãs
em praça pública, mas confesso que algumas bandeiras levantadas são inconsistentes.
A mulher, como ser autônomo, é livre pra fazer suas escolhas, mesmo que elas
desviem do que a sociedade rotula como “normal”.
Uma das minhas
curiosidades, ao ler a obra, era desvendar o encantamento que muitas mulheres
me confessaram em relação a Christian Grey. Confesso que a princípio senti uma
aversão descomunal ao personagem, mas pude compreender ao longo das páginas o
segredo do homem obcecado pelo controle. Essas mulheres às quais me refiro não
o admiram pelo seu poder (aquisitivo ou coercitivo), ou por gostarem de ser
controladas ou pelo porte físico descrito pela autora. O grande triunfo dele
consiste no fato de que muitas mulheres gostam de proteção e atenção. Grey
tenta estar presente desde os mínimos gestos. Encarar suas ações como uma tentativa
de “comprar” Anastasia é supor que uma mulher tenha seu preço. Há várias formas
de interpretar as grandiloqüentes ações do milionário, a que mais me parece coerente é a de considerar uma tentativa
de impressionar o parceiro.
Anastasia
Steele, por sua vez, nos arrebata por representar os conflitos internos que
sofremos, sobretudo quando estamos conhecendo alguém. Talvez esse seja o ponto
forte do livro, nos induzir a uma imersão no universo psicológico de uma
mulher, com suas fragilidades e temperanças. Apesar de fazer escolhas ousadas,
Ana tende a procurar muitas justificativas para suas ações. A meu ver, a
maioria delas parece uma tentativa de provar para si mesmo que os erros
cometidos valem à pena.
Considerei
enredo criativo, mesmo apresentando alguns aspectos já descritos em outros
livros e filmes. Em um mundo em que tantas obras já foram escritas e a
genuinidade é cada vez mais inalcaçável, a resolução dos conflitos me pareceu
satisfatória.
Porém, como nada
nesse mundo é perfeito, há um aspecto do livro que deixa a desejar e, mesmo
assim, acaba sendo o que há de mais curioso: ele é MUITO MAL ESCRITO. Excesso
de palavrões, expressões que beiram a breguice, repetição demasiada de palavras
(perdi as contas de quantas vezes ela se refere à “deusa interior”), etc. No
entanto, os diálogos e a articulação dos acontecimentos são tão consistentes
que mesmo detestando a maioria das palavras, somos acorrentados pela história.
A idéia está acima da execução, inequívocamente. Talvez seja isso que desaponte
os letrados. No entanto, é exatamente isso que eles devem ter em mente: de nada
adianta ser brilhante com as palavras se as idéias são medíocres. Mas de todas as
coisas que esse livro me trouxe, nenhuma foi mais prazerosa do que saber que
ele trouxe a algumas pessoas a paixão pela literatura. Machado de Assis é
brilhante, Nietzsche é arrebatador, mas o que verdadeiramente importa é sentir
alegria no que se faz. Viva Cinquenta tons de cinza e a sua capacidade de colocar a
sociedade pra discutir uma obra literária.

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