
Da sala de espera todos escutavam aquele som intenso vindo da maternidade. Não era um choro qualquer, era um grito capaz de cortar uma alma. A enfermeira que já somava trinta anos de profissão jamais assistira algo parecido. O pai ficou absorto e por um momento pensou no pior. Correndo para o vidro, aquele homem viveu os piores minutos de sua vida. A angústia no peito delatava o amor que sentia por alguém que jamais havia visto, mas que desde o ventre já possuía o controle de sua existência.
De repente uma mulher surge com Maria Fernanda nos braços e o pai a reconhece imediatamente. Não pelos traços ou por uma afinidade sobrenatural, mas pelo fato de que aquele choro trazia um aviso inequívoco. Já não era o impacto da luz da maternidade que assustava a menina. Aquele grito excruciante era o prenúncio da dor que o mundo lhe infligiria incessantemente. Não pense o nobre leitor que o tempo logo trataria de reverter o jogo, essa fantasia só pertence aos que se entregam às falácias do otimismo. Tudo era pungente, tudo era sofrimento. Na fase adulta, depois de tantas intempéries, Maria decidiu acreditar que Deus estava morto. Não, Ele não estava, simplesmente havia decidido dar as costas àquele dejeto humano que O negava desde o ventre. Punir também é uma forma de amar.
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