quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

A última batalha


E lá estávamos nós, estirados no campo de batalha esperando a morte chegar. Sujos, cansados, rogando aos céus que aquela dor terminasse o mais breve possível. Chorando, ele ergueu a cabeça como pôde, exatamente no instante em que fiz o mesmo gesto tresloucado. Era a primeira vez que ele me via durante toda a guerra. Eu havia vencido cada desafio em silêncio, como se a glória prescindisse de seu reconhecimento.

As mulheres de minha época, quando apaixonadas por um soldado, alistavam-se à Cruz Vermelha. Eu, não. De que vale a parceria se não se está no front? No entanto, devo reconhecer que o universo feminino era terminantemente proibido de alcançar tal patente. O que você, caro leitor, não é capaz de compreender é que o amor reside exatamente na impossibilidade.

Foi pensando nisso que me submeti a uma série de cirurgias e exercícios para conseguir o alistamento. Usei todos os recursos inimagináveis para estar, unicamente, ao lado dele. Não pense que com isso tive que abrir mão de mim, muito pelo contrário. Na verdade, tive que me ser mais do que em qualquer outra provação. Somente sendo egoísta é que se atinge o altruísmo perfeito.

Ele havia sido meu parceiro durante a vida, na hora derradeira não poderia ser diferente. Mas não pense que ele tenha sido capaz de reconhecer minha fisionomia durante todo aquele tempo no Iraque. Ele me amava porque sua alma conhecia a minha inequivocamente.

Somente agora, que o inimigo se aproxima e nosso sangue estampa a farda dos estadunidenses, é que ele tem coragem de declarar o que sente por mim. Não sei se por machismo ou por respeito a quem eu era, afinal foi a mim que ele jurou amor eterno antes de aceitar aquela missão. A única certeza é a de que quanto mais próximos da morte, mais lúcidos ficamos.

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