
Ana está no parapeito, prestes a pular do vigésimo segundo andar. Lá embaixo os carros continuam transitando como se nada estivesse acontecendo. Um casal se beija na esquina, uma criança tem sua primeira aula de inglês, uma senhora coloca suas jóias no banco. Todos são indiferentes à dor da garota que deseja saltar. Ninguém sabe ao certo o que punge uma alma, o que a dilacera. Em um sorriso pode estar contida a dor de toda uma vida, o grito de desespero brutalmente sufocado. É que o homem em sua capacidade imensa, foi capaz de desvendar inúmeros mistérios, mas a alma continua sendo um livro velado, uma interrogativa a pairar sobre as mentes supostamente brilhantes dos acadêmicos.
Não há um dispositivo em todo o universo capaz de detectar essa sensação que toma o corpo de Ana. Essa lâmina que lhe atravessa o peito e lhe arranca o ar não pode ser transcrita fidedignamente porque não é um material que está sendo inserido em seu corpo, é um sentimento que lá reside. Não há remédio para esse mal, por mais que os otimistas digam que existe e que se chama tempo. A sucessão das horas não cura absolutamente nada. A verdade é que as marcas vão sendo carregadas vida a fora. Se tais dores se vertessem em cicatrizes visíveis, a terra seria um grande necrotério onde desfilaríamos nossos corpos dilacerados pelos dissabores.
Foi exatamente no momento em que Ana olhou-se no espelho e conseguiu enxergar todas essas feridas. Aos 24 anos a vida perde o sentido para quem carrega nos ombros a dor de um mundo doentio e a certeza de que a morte é a única saída. Tudo dói. Tudo rasga.
Sem hesitar, ela pula em direção ao inesperado. Abraça o fim como uma mãe que recebe o filho em seus braços pela primeira vez. Não aparecerá amanhã nos jornais. Não terá que viver um dia a mais neste mundo onde uns indivíduos acham que podem transformar o caráter dos demais. Seu projeto de engenharia social já foi pelos ares há muito tempo. Ninguém muda, as pessoas apenas representam papéis diferentes conforme seus interesses.
Um comentário:
Ótimo texto! Senti a sensibilidade que poucos têm para as coisas do mundo e da vida!
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