
Com a timidez de quem há muito está enclausurado às partituras, o pianista de meia idade adentra o palco. Trajando um fraque com detalhes vermelhos, ele toca o instrumento com uma precisão inequívoca, a ponto de fazer com que Franz Lizst reencarne diante dos olhos da platéia. Já não são autor e intérprete no palco, eles se fundiram na cadência perfeita. Aquele vermelho das vestes do pianista, somado aos detalhes rubros na lateral do instrumento fazem-me constatar que aquela é a cor mais paradoxal de todas, pois representa tanto o sentimento mais nobre do mundo quanto o sangue derramado. Talvez essa seja a lição: amor é morte. A prova disso é que cada nota tocada traz, concomitantemente, um alívio para a alma que a escuta e uma dor às mãos de quem a executa.
O movimento de transição das folhas da partitura reflete o caráter efêmero do tempo, que nos impede de desfazer o erro assim como qualquer imprecisão do artista jamais pode ser consertado. Porém, não é a técnica que me prende a respiração, mas o fato de perceber que os mesmos dedos que pressionam as teclas, tocam minhas terminações neurais. Anatomia e música tornam-se uma só. É essa arte-ciência que me mortifica, vasculha o que há de mais sombrio em mim e faz com que as notas musicais se transformem nestas palavras que aqui vos escrevo.
Quando o artista finaliza a sinfonia, tenho uma vontade sobre-humana de subir ao palco e abraçá-lo. Na verdade, queria abraçar o seu espírito, salvá-lo dele mesmo, de suas dores, dissabores, amores não correspondidos, críticas audazes que deve ter recebido da vanguarda. A partir daquele momento eu descobria o que era amar uma alma. Porém, a humanidade é pérfida para compreender isso e o público demasiado superficial para aceitar com bons olhos tal atitude. Tive que conter meu ímpeto simplesmente por pertencer a uma sociedade em que já não se pode segurar uma mão sem desejar o corpo ao qual ela pertence.
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