terça-feira, 28 de junho de 2011

Simulacro Involuntário



Ana não acreditou quando leu aquela advertência expressa na porta da casa de Pedro. No entanto, seguiu as instruções e deixou o objeto indesejado debaixo do tapete e adentrou o recinto. Pedro veio de encontro à moça e, como de costume, a despiu com a frieza comparável a de um perito de longa data que examina um corpo ainda gélido no necrotério. O que não esperava, no entanto, era que ela respondesse à altura. Com um olhar cadavérico e o silêncio de quem há muito partiu, ela continuava inerte aos estímulos daquele homem. Não havia repulsa ou deleite na imobilidade de Ana, embora Pedro fosse prepotente ao ponto de encarar aquele gesto como forma de protesto:


-O que está acontecendo, querida?
-Nada


Aquelas quatro letras soavam como outorga para uma nova investida, embora qualquer leitor desatento possa prever o fracasso inerente do pobre personagem.
Durante oito anos de relacionamento, Ana o teria amado em absoluto silêncio, o que Pedro era capaz de compreender inequivocamente. Ele continuava escutando, diariamente, as declarações de amor sem que julgasse necessário responder com uma palavra sequer. Mesmo sabendo que uma breve mentira seria capaz de aquietar o espírito daquela mulher, ele permanecia silente. No entanto, era inadmissível que ela se calasse na cama, pois aquele era o único palco em que ele se reconhecia como protagonista.


A egolatria daquele homem o impedia de enxergar o óbvio: era tudo encenação. As cortinas se fecharam, as luzes foram apagadas e a platéia gargalhava diante da impotência de Pedro, que não teria sido astuto o suficiente para compreender o simulacro utilizado por Ana durante oito longos anos de namoro. E agora, que a monumental frustração daquele homem havia sido desmascarada, Ana juntava as peças de roupa espalhadas pelo chão e caminhava em direção à porta. Ao abri-la, tratou de apanhar o coração que havia deixado debaixo do tapete, pois ele já batia sôfrego pelo novo rapaz, que acabava de cruzar a esquina.

Um comentário:

Isabela Ramalho disse...

Tão intenso e tão real!