Quando se conheceram, tudo era
festa. Ela, que acabava de voltar da Europa, lia Foucault e Neruda. Ele, que
havia passado as férias em Jurerê, amava trance e balada. Formavam o casal
perfeito, cada um com suas particularidades. No primeiro encontro, ele quis
impressioná-la e perguntou se um teatro não cairia bem. Ela, encantada com o
gesto, perguntou se a peça de Shakespeare não seria a melhor saída. Ele fingia
que gostava do dramaturgo, ela fingia que acreditava.
Na segunda vez em que saíram,
inverteram os papéis. Ela, que por ser eclética, gostava de house e música clássica,
propôs uma balada. Agora ele finalmente se sentia em casa e ela, um peixe fora
d’água. Não importa. A presença do outro sempre era superior a qualquer
divertimento.
Durante muito tempo cada um
representava seu papel. Tudo em nome da paixão. Até que um dia ele deixou de
ceder e ela foi se apagando para se tornar aquilo que ele desejava. Tudo bem,
afinal nesse jogo todos saíam perdendo e ganhando. Não havia vítima ou vilão, apenas pessoas
frustradas em suas aspirações.
Depois de muitos meses, ele
resolveu sucumbir à sua cólera reprimida. Ela, que estava cansada de
absolutamente tudo, continuou resignada e abriu mão do que ainda lhe restava.
Ele, certo de que havia vencido, fingiu-se cortês e passou a oferecer o mundo a
ela. Tarde demais, o mundo mesmo já havia se encarregado de mostrá-la o que
poderia oferecê-la.
Naquela noite fria de novembro,
ele novamente perdia a paciência com ela. Acreditando já ser eterno em seu
coração, lançava algumas palavras rudes e fingia não se importar com a ausência
dela. Ela, finalmente desperta daquele pesadelo, jogava tudo para o alto e saía
pela porta. Dois destinos que tomavam novos rumos.
Ele, desesperado, corria para os
braços dela. Tarde demais, pois aqueles mesmos braços se abriam para um novo
mundo. Um rapaz galante se aproximava dela, declamando Nietzsche e ouvindo
Franz Liszt. Outra moça se aproximava dele, falando sobre Whey Protein e
ouvindo David Gueta. Parecia o fim perfeito, não fosse pelo simples fato de que
não se ama alguém pela simples compatibilidade de gêneros.
No fim, o melhor mesmo era
viverem distanciados, pois o amor é eclético, mas a incompatibilidade de
paciências, não.
Karen Fontenele

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