quarta-feira, 26 de junho de 2013

Amores Incompatíveis




Quando se conheceram, tudo era festa. Ela, que acabava de voltar da Europa, lia Foucault e Neruda. Ele, que havia passado as férias em Jurerê, amava trance e balada. Formavam o casal perfeito, cada um com suas particularidades. No primeiro encontro, ele quis impressioná-la e perguntou se um teatro não cairia bem. Ela, encantada com o gesto, perguntou se a peça de Shakespeare não seria a melhor saída. Ele fingia que gostava do dramaturgo, ela fingia que acreditava.

Na segunda vez em que saíram, inverteram os papéis. Ela, que por ser eclética, gostava de house e música clássica, propôs uma balada. Agora ele finalmente se sentia em casa e ela, um peixe fora d’água. Não importa. A presença do outro sempre era superior a qualquer divertimento.

Durante muito tempo cada um representava seu papel. Tudo em nome da paixão. Até que um dia ele deixou de ceder e ela foi se apagando para se tornar aquilo que ele desejava. Tudo bem, afinal nesse jogo todos saíam perdendo e ganhando.  Não havia vítima ou vilão, apenas pessoas frustradas em suas aspirações.

Depois de muitos meses, ele resolveu sucumbir à sua cólera reprimida. Ela, que estava cansada de absolutamente tudo, continuou resignada e abriu mão do que ainda lhe restava. Ele, certo de que havia vencido, fingiu-se cortês e passou a oferecer o mundo a ela. Tarde demais, o mundo mesmo já havia se encarregado de mostrá-la o que poderia oferecê-la.

Naquela noite fria de novembro, ele novamente perdia a paciência com ela. Acreditando já ser eterno em seu coração, lançava algumas palavras rudes e fingia não se importar com a ausência dela. Ela, finalmente desperta daquele pesadelo, jogava tudo para o alto e saía pela porta. Dois destinos que tomavam novos rumos.

Ele, desesperado, corria para os braços dela. Tarde demais, pois aqueles mesmos braços se abriam para um novo mundo. Um rapaz galante se aproximava dela, declamando Nietzsche e ouvindo Franz Liszt. Outra moça se aproximava dele, falando sobre Whey Protein e ouvindo David Gueta. Parecia o fim perfeito, não fosse pelo simples fato de que não se ama alguém pela simples compatibilidade de gêneros.

No fim, o melhor mesmo era viverem distanciados, pois o amor é eclético, mas a incompatibilidade de paciências, não.
 
                                                                                                                                           Karen Fontenele

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