Ela estava lendo no mais absoluto silêncio quando escutou um estrondo na porta. Mal pôde acreditar que Pedro estava de volta. Sua entrada não podia ser mais triunfal: com um chute certeiro, ele arrombava a porta e a alma da jovem. Após três anos morando na Suíça, finalmente sucumbia à saudade e aos prejuízos que ela traz. Não havia espaço para perguntas, discussões vãs, cobranças. Acreditando apenas na força do passado, ele largava as malas e corria em direção à Sofia que, estupefata, permanecia inerte.
A verdade é que ela não acreditava em segundas chances.Na época em que Pedro se inscreveu no programa de intercâmbio, ela simplesmente cortou relações, afirmando que a distância era um obstáculo intransponível. Chorou dias a fio, mas se manteve fiel à decisão. Queimava todos os cartões postais que ele enviava, sem ao menos lê-los. Procurava alguém pra suprir a falta que ele fazia, numa busca desenfreada de si mesma. Fingia que amava qualquer um que aparecesse. Em uma semana já estava fazendo declarações de amor eterno para um desconhecido, mas logo arrumava um jeito de distanciá-lo. Fingia-se de possessiva para testar a paciência de todos eles. Tirar o sossego alheio era sua meta. Durante todo esse tempo orgulhava-se de si, como se todos os fracassos sentimentais fossem meras escolhas de uma mulher ousada.
Ao rever Pedro, todas as certezas se desfizeram. Viu então que dizer sim para ele era o mesmo que apostar novamente em si mesma. A distância não era capaz de fragilizar a sintonia, a paixão desenfreada, a cumplicidade. Foi nesse instante que ele perguntou:
-E se eu te dissesse que preciso partir novamente?
Sorrindo, Sofia respondeu:
-Eu te daria um beijo e diria para você sair de fininho. Compraria outra porta, mais frágil, que era para poupar suas forças da próxima vez que você voltasse.
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