
Era sexta-feira na cidade de Nova Iorque. Sophia, especialista em mercado cambial e palestrante de renome, tomava café no restaurante do hotel, quando seus olhos foram subitamente atraídos para o aparelho que tanto desprezava, de onde o repórter dizia:
Grupo cristão americano anuncia que o mundo acabará neste sábado.
Com seu sarcasmo admonitório, a mulher altiva franziu o cenho e disse ao garçom:
-O senhor acredita nessas bobagens que estão dizendo?
Ajeitando a gravata, ainda desconcertado pela beleza daquela mulher, Alfredo respondeu com a timidez típica de quem não acredita estar sendo evocado:
-Não... Aliás, não sei. Tenho medo dessas coisas de previsão. Não confio muito, mas vai que...
-Meu caro, veja bem: incas, maias, astecas, profetas, gurus. Uma infinidade de vozes afirmando convictas: O fim do mundo tem data marcada! E este nunca chega de fato. Estou farta dessas bobagens disseminadas pelas mídias. Se ainda existem petralhas como estes é porque existem jornalistas comprometidos com o grotesco. Fique tranquilo, o mundo não vai acabar. No máximo, a minha carreira. Se eu não correr imediatamente para a Universidade onde ministro uma palestra daqui a 20 minutos, estarei perdida. Tome, fique com o troco e tenha um ótimo dia- E assim partiu para o hall de entrada, onde o taxista a aguardava.
Chegando à Universidade de Columbia, Sophia foi abordada por um homem que mais parecia um astro de Hollywood. Alto, loiro, de olhos claros.
-Bom dia. Desculpe-me perguntar, mas você é Sophia Lean? - Perguntou o jovem apolíneo
Não acreditando que aquelas palavras vinham em sua direção e, segurando o casaco vermelho que acompanhava a direção dos ventos, a palestrante respondeu:
-Sim, sou eu. Então suponho que você seja o coordenador do departamento de economia, estou certa?
-Exatamente. Fernando Katz, à sua disposição. Queira me acompanhar ao auditório, os alunos a aguardam.
Apertando timidamente as mãos que se estendiam à sua frente, ela respondeu:
-Peço desculpas pelo atraso, senhor coordenador. Mas é que...
-Nada disso, não me venha com justificativas. A senhorita só terá uma forma de se retratar: Almoçando com o coordenador após a palestra.Estamos combinados?
-Bem, eu não posso... Não poderia... Mas já que insiste, de acordo – Disse Sophia, sentindo-se intimidada pela ousadia e o tom eloqüente de Fernando.
Adentrando o auditório lotado, Sophia se dirigiu ao púlpito e pormenorizou a temática Dow Jones. Ao finalizar seus apontamentos, foi aplaudida de pé pelos alunos. Convicta de seu domínio da temática, a jovem especialista, ainda assim, demonstrava fragilidade. O motivo tinha um metro e noventa e estava sentado na primeira fileira.Sorrindo triunfante, Fernando subiu ao palco, agradeceu publicamente a explanação de Sophia e deu por encerrado o evento.
Em seguida almoçaram juntos, conforme acordado. Sentados à mesa, trocaram poucas palavras. Os olhos, infiéis a razão, denunciavam o desejo emanado. Foi neste momento que Sophia hesitou e deu aquele sorriso. Oh, caro leitor, não finja que não sabe de que sorriso estou falando. Refiro-me àquele sorriso contratual, que pode ser interpretado como um consentimento silente: Sim, eu te desejo com o que há de mais profundo em mim.
Compreendendo os sinais que o corpo de Sophia emitia e, tomado pelo arrebatamento mais intenso que já acontecera em sua existência, Fernando levou-a ao sobrado onde morava sozinho. Era a primeira vez que ele tomava uma atitude como essa sem consultar a outra parte, assim como Sophia jamais teria aceitado um convite de um desconhecido. Eles simplesmente se deixavam levar pela fugacidade inerente ao encontro de duas almas.
Depois de horas encarcerada de maneira consentida no quarto do anfitrião, Sophia olhou para o relógio em seu pulso que marcava 00:10h. Foi nesta hora que lhe ocorreu a necessidade de confessar o grande equívoco que havia cometido. Impetuosamente, correu para o banheiro. Trancando a porta para que Fernando não presenciasse aquele momento de esclarecimento individual e indivisível, ela ajoelhou-se, cerrou os olhos e disse, mentalmente:
-Perdão a todos que anunciaram este momento, independente de credo ou religião. Eu, que nada sei sobre a existência, zombei dos vários sinais que me foram enviados a respeito deste acontecimento. Fiz da ciência meu único refúgio e, somente agora, pude confirmar que o mundo verdadeiramente acaba. Sou intransigente, arrogante e teimosa, mas nem por isso deixei de ser agraciada com esse fato.
Por mais que esse ato de Sophia se configure como ato de loucura aos teus olhos, querido leitor, não se pode negar que o mundo é uma eterna consecução de fins. Aqui, não se almeja impor um tratado acerca da imanência, mas demonstrar narrativamente que presenciar aos fins do mundo é para muitos, ao passo que fruí-los da maneira mais correta se restringe aos poucos e bons. Você já sentiu plenamente o outro? Ouviu a Terra trepidar sob seus pés? Vivenciou um momento especial ao ponto de tornar o mundo inteiro à sua volta insignificante? Se a resposta for afirmativa, seja bem-vindo ao clube dos que já presenciaram ao grande fim de todas as coisas. Até mesmo dessa narrativa despretensiosa. Desta forma, me despeço de você, testemunha ocular do ciclo infindável que tem fim. Paradoxal, porém real.
Karen Pacheco Fontenele
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