
Cabelos ao vento, pensamento voltado aos céus. E do magno rosto escorria a lágrima. Solitária e breve, como que retratando a alma daquela que a despejava.
Não tardou a descer pelo pescoço marcado pelas digitais dele. Sim, ele. O homem que caminhava a sorrir pelas ruas sem hesitar. Deixava tudo para trás, exceto um bilhete em letras garrafais que levava no bolso por onde quer que fosse.
E ela, tão frágil aos olhos de ti, pobre leitor, esboçava um sorriso fulminante. No peito, a certeza única de não pertencer a nada nem a ninguém. Aquela gota, que outrora percorria sua face, era um grito silente perante a constatação máxima do não pertencimento. Um sinal para que o Universo acreditasse em uma debilidade que jamais possuía. Um signo irônico da mais absoluta mediocridade dos seres humanos que vencem, criam, lutam... mas também choram e voltam a cometer os mesmos equívocos, ad infinitum.
E ele, que julgavas intocável apenas pela leitura das primeiras linhas, carregava em seu peito os destroços remanescentes da crueldade daquela mulher que fazia víspere. Reabrindo aquele papel, lá pela centésima vez, ele repetia as palavras que ela rabiscara com lápis, para reafirmar seu descaso e pouco apreço à formalidade das despedidas: "NÃO FOSTES O PRIMEIRO, NEM SERÁS O ÚLTIMO. NÃO SOFRAS EM VÃO, O ERRO NÃO FOI TEU OU MEU. FECHE ESSA PORTA QUE O MEU PEITO BATE DEPRESSA, CLAMANDO A VINDA DOS DEMAIS.O DESTINO QUIS QUE EU NÃO PERTENCESSE A NADA, MUITO MENOS A ALGUÉM.ADEUS"
Assim ela se despedia. Altiva. Profana, embora sagrada.
Karen Fontenele
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