
Já dizia o mestre Nelson Rodrigues: "Toda unanimidade é burra." Essa frase introduz a dinâmica do assunto que será tratado neste texto, servindo como argumento de defesa muito antes que a aspirante à jornalista seja atacada pela crítica.
Como sabemos, o autor da frase é conhecido como um dos maiores dramaturgos de todos os tempos e, por conseguinte, esteve em contato com diversas personalidades. Conviveu com a peculiaridade, mas lançou o seu olhar sobre o mundo.Desta forma, me atrevo à esboçar uma compreensão (embora admita demasiadamente incipiente) sobre os alunos do curso de medicina da UFT.
Sei que corro um risco enorme, principalmente por se tratar de uma descrição superficial , baseada sumariamente em momentos de observação e conversas efêmeras.A verdade é que ousar é necessário e, sabendo que a humanidade jamais tocará a verdade em sua plenitude, empreendo minha análise.
Alguns dirão que o bom Jornalismo é imparcial, mas é importante salientar o papel da liberdade de expressão no jogo democrático, principalmente quando se releva o direito à integridade. Respeitando essas cláusulas, iniciemos meu argumento.
Durante algum tempo tenho observado o comportamento destes estudantes e percebo que , grosso modo, podemos dizer que existem dois grupos gerais, aos quais denomino Apocalípticos e Integrados. Os meus colegas de Jornalismo logo associarão os termos ao aporte teórico que nos foi transmitido, mas pretendo fazer uma releitura despojada.
Chamo de apocalíptico aquele que vive intensamente a experiência de morar sozinho, de poder sair para onde quiser, não hesitando em fazê-lo, já que o mundo pode acabar amanhã mesmo. Integrados seriam aqueles que acreditam num amanhã passível a modificações, que estudam em demasia, pretendendo revolucionar a medicina internacional, mesmo que isso demande o abandono do lazer.
Os apocalípticos geralmente criticam os integrados por seus esforços exagerados, utilizando como defesa a máxima de que o estudo é o princípio da infelicidade. Segundo eles, para sermos felizes devemos estudar apenas o suficiente à aprovação,sairmos de quarta à domingo, já que estudar anatomia na prática noturna é bem mais fascinante que consultar Sobotta. Há até mesmo os que sonham serem humoristas, mas freqüentam a faculdade por imposição dos pais.Passam horas escutando Fisiologia, mas têm como fetiche imaginar um paciente em estado terminal chegando em seu consultório e dizer: "Todo mundo toma, até a "hematoma".
Há também os que fazem campanhas de conscientização pela manhã e se rendem aos encantos etílicos à noite, desrespeitando o fígado, a lei seca.Devemos relembrar dos que sofrem o complexo de Clark Kent: é só vestir a blusa com as 8 sagradas letras que se sentem super-heróis, vivem correndo o risco de esbarrar o nariz nas nuvens.
Recentemente estava conversando com uma caloura do meu curso, quando descobri que alguns conhecidos dela que acabam de entrar para Medicina não a cumprimentam nos corredores quando acompanhados da "futura-elite-intelectual-médica de Palmas City." Ou seja, agem como se o CRM-TO os obrigasse a conviver apenas com seus pares (Perdoa-me Pierre Bourdieu por colocar teu nome neste assunto!)Enfim, descobri também que a maior idiotice do universo consiste em freqüentar bibliotecas. Todas elas deveriam ter um aviso prévio: Entrais e serás reconhecido como um nerd imbecil. Difícil crer, não é mesmo? Mas é isso que alguns coleguinhas andam falando pelos corredores.
Afora estes poucos pensamentos medíocres, conheci pessoas fantásticas durante este tempo de convivência. Jovens centrados, divertidos (sem serem imbecis) e que muito têm a dizer a todos nós. A verdade é que Medicina revolucionou o campus de Palmas, agregando valor à instituição e à cidade em geral. A estes dedico minhas singelas palavras e, espero que possam delinear uma nova trajetória à realidade hospitalar de nosso país. Futuros doutores, mentes brilhantes em busca de um sonho muitas vezes traçados ainda na infância. Guerreiros que abandonam seus lares em busca de tornar o improvável em realidade.
Frente a alguns de vocês, eu enxergo sonhos contidos detrás das lentes: milhares de horas em contato com livros silentes, inodoros, calculistas.Estudar até mesmo o que se odeia, já que a concorrência os obriga a lutar pela perfeição. Muitos ainda, tão novos: transparecem fragilidade e escondem por entre os traços da ternura uma infância conturbada.Juntai-vos, juventude de jaleco, transformai-vos em bisturi e reconstitui-nos o mundo da harmonia greco-romana, edificando a pólis contemporânea!
Nota Final: Antes mesmo de criticarem a matéria, percebam que mostro os dois lados da questão, pois conheço a persistência do maniqueísmo na mente de alguns.O texto poderia ter sido embasado no corpo discente de qualquer outro curso, já que existem diversidades em todas as partes do Universo. Se o meu recorte destaca os personagens em questão, é porque exerceram influência em minha forma de contemplar o mundo.
Karen Fontenele
Um comentário:
hahahhaa... amei o texto!
Sabe, não sei muito bem como se comportam os alunos de medicina de uma faculdade federal, mas pelo seu texto pude ter idéia.
Aqui na minha cidade a faculdade de Medicina é particular, e assim como você, já andei observando e chegando à algumas suposições.
Há aqueles(minoria) que levam o curso realmente a serio. Os bolsistas e aqueles que valorizam os 2700 reais pagos todo mês estão dentro dessa classificação. Geralmente são perseguidos e se tornam motivos para chacota.
Há os famosos "filhinhos de papai". Aqueles que fazem medicina simplesmente pelo status do curso ou porque os pais escolheram para eles. Esses desfilam pela cidade com seus carrões, andam quase tropeçando no próprio ego e não se misturam com universitários de outros cursos. E é ainda essa elite do jaleco branco, que atrapalham a vida daqueles que querem realmente estudar. Fututos açougueiros!
É de dar pena!
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