terça-feira, 20 de julho de 2010

Amizade: A arte de diferenciar pessoas de objetos



No dia dos amigos o exercício mais correto a ser feito é repensar as dimensões que a palavra amizade apresenta nos dias atuais. Ao ligar meu computador para escrever este texto, havia me esquecido de que só estava no modo “hibernar” e caiu direto na página do Orkut. Logo, tudo que estava em mente começou a ser desordenado, uma vez que enquanto comunicóloga, as relações interpessoais nessa rede social me interessam demasiadamente.
Então resolvi dar uma bisbilhotada nas comunidades de alguns amigos e conhecidos. Na terceira investigação, eis que surge o que eu procurava: a comunidade que demonstrasse o quanto algumas pessoas são fugazes nos sentimentos, em especial nas amizades. Como uma luva, aparece a seguinte: “Enjôo rápido das coisas – E isso inclui pessoas”. Advinha quantos membros? 1.099! Então procurei no que mais me interessava: Quantos dos meus amigos participam dessa comunidade? E eu já imaginava a resposta – NENHUM.

Eis a prova concreta de que tenho selecionado bem as pessoas com as quais construo laços de amizade. E você, já parou pra pensar no que consiste essa palavrinha de sete letras que pode mudar sua vida? Reconhece que todo aquele que trata pessoas como objetos tende à solidão? Sabe qual é a base da mudança comportamental de cada pessoa?

A verdade é que uma palavrinha maldita chamada globalização aliada aos conceitos de sociedade em rede, têm transmitido à maioria da população que estamos cada vez mais próximos. Pura falácia! O que é proximidade? É estar conversando via internet com um indivíduo desconhecido que reside no Japão ou bater à porta de alguém que lhe magoou? É ter 5.000 amigos em redes sociais ou apenas um ombro pra chorar quando a dor chegar? É sorrir a todos que lhe cercam ou apontar um defeito de alguém que você gosta com a intenção de ajudá-lo a ser uma pessoa melhor?

A amizade está intrinsecamente ligada ao perdão porquê ela é, antes de tudo, uma forma de amar. Um sentimento ágape que deve estar buscando eternamente a superação das crises existentes entre você e o seu amigo. O que acontece na maioria dos casos é que um erro proveniente de uma pessoa que já fez centenas de coisas positivas para você pode jogar pelo ralo tudo que já foi construído. Sabe por quê? Porque somos indivíduos egoístas, impulsivos e impiedosos. Estamos sempre esquecendo do passado em detrimento das nossas necessidades do presente. É muito mais fácil jogar tudo pela janela do que tentar compreender os motivos que levaram aquela pessoa especial à cometer uma atitude incorreta em um momento de precipitação. Perdoar é para os fracos, ensinam os frustrados, os incapazes de amar novamente.
Ser intolerante virou sinônimo de auto-suficiência, mas o que eles não percebem é que a existência depende das relações. É por isso que clínicas de psiquiatria estão lotadas, igrejas recebem fiéis em busca de cura através da oração, quando na verdade, estamos nos tornando escravos de nós mesmos, da nossa fragilidade mascarada de onipotência.

Por isso eu agradeço a todos que passam diariamente pela minha vida, seja para permanecer durante anos ou segundos, o importante é que reconheço o valor de cada palavra que pronunciam na minha presença. Minha memória é deficitária para alguns temas, mas no que concerne ao que me foi dito pelas pessoas que passam pela minha vida, ela é quase fotográfica. Talvez essa seja a maior dor que carrego nessa vida: Viver um eterno flashback daquilo que me dizem, principalmente porquê uma das coisas mais comuns nos seres humanos é falar o que pensa sem refletir nas conseqüências que aquilo pode trazer a outrem.

É tão incrível, que me lembro do meu primeiro dia de aula, quando o dono do transporte escolar me disse: “Tira o pé do estepe, lindinha.” (Eu estava em uma Kombi e, pra quem lembra, o estepe ficava em uma elevação da divisória entre o banco do motorista e a primeira fileira de passageiros). Na verdade, eu havia colocado os pés ali porquê queria ver melhor o par de tênis que minha mãe havia comprado pra mim. Além do mais, eu nem sabia o que era estepe, então perguntei. “É uma roda que também ajuda essa Kombi a ir pra escola”- respondeu o motorista. Retruquei: Ela também roda com as outras? Ele disse: “Sim, igualzinha às outras.” Na inocência dos meus primeiros anos de vida, passei a acreditar que aquela coisa redonda que estava envolvida numa fibra protetora rodava concomitantemente às quatro externas e que se ela parasse, as outras também parariam de funcionar.

Nunca mais coloquei o pé ali, com medo de perder a aula, mas não dividi esse receio com meus coleguinhas de turma, com o receio de que algum deles colocasse o pé pra boicotar as aulas. Como minha mãe também sempre foi muito amável e cuidadosa comigo, não quis alertá-la do risco permanente que eu pensava que corria, então passava o trajeto todo vigiando o estepe com medo de alguém pisar. Hoje, posso rir disso, mas não consigo esquecer. E assim acontece com a maioria das coisas que dizem para mim, principalmente as negativas.

Mas ao invés de ficar buscando me vingar, machucar aqueles que me trouxeram ou trazem tristeza, tento compreender os motivos que os fizeram agir de determinada forma e perdoá-los, pois busco em cada gesto o reflexo da falibilidade inerente a todo ser. Se eu erro, por que os outros têm que acertar sempre? Se eu quero ser perdoada por que devo ignorar quem me pede desculpas? Pense nisso ou viva uma obra de Gabriel García Márquez: Cem Anos de Solidão.

Você agüentaria o fardo de viver sozinho eternamente? Pense nisso!


PS: Dedico esse texto à todos os meus amigos verdadeiros, em especial aos que estão mais presentes e possuem um amor superior à todos que recebi até hoje: ao meu pai, minha linda mãe e minha irmãzinha linda.

2 comentários:

Caio disse...

sábias palavras Karen...

emocionante a linda senda da indulgência que você propõe nas suas ilações.

siga nessa perspectiva altruísta, pois o mundo precisa de pessoas comprometidas com a verdade essêncial da vida a fim de que a metamorfose social ocorra em tempo...

grande abraço

Caio

Karen Fontenele disse...

Estou longe da sabedoria, mas fico feliz que tenhas gostado. O altruísmo deveria ser o norte da humanidade, de fato, tento busca-lo diariamente.

Outro enorme abraço, Caio e obrigada pelos elogios.