Um rapaz silente se configurava diante à altivez daquela mulher: Alto, beleza apolínea e um olhar infantil, de quem quer devorar os mistérios do universo. Todas as certezas se dissipavam, uma atmosfera de impossibilidades e o entrave social teimava em afastá-los. Ela resistia bravamente, embora seus gestos demonstrassem o contrário. De mulher à menina em questão de segundos. Todo seu ceticismo dava lugar àquele devaneio que até então era uma armadilha no coração feminino.
Fingia-se prodigioso, um autodidata à frente de todos os garotos de sua época. Rosto harmonioso, arrogância disfarçada na inocência de seus sorrisos. Estava preso à imaturidade, embora atuasse perfeitamente, parecendo-lhe um cavalheiro medieval perdido na contemporaneidade.
E ela, versada sobre quase todos os assuntos da existência, se via inerte aos encantos do garoto. Uma ânsia em regressar no tempo, adentrar um mundo completamente dísparo ao qual ela pertencia. Voltara a ser garota, penteando seus cabelos à espera do príncipe encantado em seu cavalo branco e alado. Se outrora seus calçados eram predominantemente adornados de saltos, com o intuito de ressaltar-lhe a autonomia, passaria então a colocar sapatilhas róseas. Continuava a elevar-se, mas limitada à ponteira e embalava-se na canção que a pouco lhe era similar ao cântico das sereias: belo, porém maligno.
Ele poderia reinventá-la, mas era incapaz até mesmo de inventar-se. Um completo neoliberal disfarçado de integralista, egocêntrico e ríspido. Uma multiplicidade de invólucros que não tardariam a ruir diante à mulher que sonhava, tentando ergue-lo em seu vôo. Dois hemisférios que jamais se completariam, entrando apenas ao rol dos infortúnios humanos.
Quão ínfimo era, quis ser menor ainda. Todas as oportunidades em suas mãos, porém optou por não evoluir. E ela, que tentava trazê-lo de volta às luzes da existência, acabou por perceber que, na verdade, estava mergulhando na escuridão. Regredia paulatinamente até o momento em que, tomada subitamente pela razão, avistou ao longe a imagem refletida naquele espelho. Aproximou-se encantada com o espectro de luz que fulgurava seu corpo e alma. Tal como um fantasma do passado, enxergava-o ao fundo, partindo gradativamente, já que o reflexo daquela mulher, de tão radiante, reduzia-o àquilo que o garoto era por excelência: o nada.
PS: Isto é apenas um conto. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.
Karen Fontenele
3 comentários:
Karen vc é linda d++ ;*
Nossa, que conto forte. Parabéns, ficou ótimo!
Esse menino é realmente um vilão em...
nossa mto foda ... foi vc quem criou ne ??... eu sou letrista ... vou compor algo sobre o seu texto ....
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